De Fernando Pessoa ao Totoro

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Este é um dos poemas, de Fernando Pessoa, que me vem acompanhando ao longo dos anos. Além de o considerar belíssimo, identifico-me muito com esta angústia pela criança perdida, esta ansiedade em voltar a ser quem fui antes de ser completamente moldada pelo mundo em que vivemos: sem juízos de valor, sem medos, sem desconfianças…

Penso, e corrijam-me se estou enganada, que muitos de nós se sentem desta forma, mesmo que muito esporadicamente. Acredito que muitos têm filhos um pouco para reviverem essa época mágica, ainda que indirectamente. Para aqueles que, como eu, não vêem prole no seu horizonte, seja por que razão for, há outras formas de voltar à infância – não é vã aquela ideia da criança interior e há sempre que a acarinhar!

Há umas semanas atrás, pus em prática uma dessas formas de recuar no tempo. Por sugestão de uma amiga, vi uma série de filmes de animação de Hayao Miyazaki: A Viagem de Chihiro, Princesa Mononoke, Laputa: o castelo no céu, Ponyo à beira-mar e Meu vizinho Totoro (todos disponíveis na internet, embora falados ou legendados em inglês). Foram umas poucas horas de evasão da realidade do Eu adulto, muito bem vindas e apreciadas. Totoro é a película mais flagrantemente direccionada para o público infantil e achei-a de uma ternura sem palavras. De certeza que Fernando Pessoa não pensaria em si mesmo numa criança a chorar, se passasse umas horas com um Totoro!

Voltando à amiga que me sugeriu os filmes: na 7.ª feira passada, foi mais um dia que lhe marcou a evolução do tempo – fez anos! E eu não resisti em fazer-lhe um pequeno mimo – nada de especial, mas com o mesmo carinho de sempre! -; uma recordação de um dado momento no tempo que marca o seu avanço mas que lhe recorda de onde veio – não sei por vocês, mas para mim os aniversários são também datas de balanço, de recordação, de melancolia e memórias. 

Mas passemos a factos concretos e, ao fim ao cabo, à motivação primeira deste post: apresentar o porta-chaves que recria Totoro. O Totoro privado da minha amiga!

Totoro visto de frente

Totoro visto de trás

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trabalhar em feltro é um dos meus Totoros e talvez seja uma forma muito ingénua e simples de voltar à infância, mas funciona, garanto-vos! Ajuda-me a recuperar a criança que deixei quando vim ser quem sou, a lembrar-me de onde vim e, sobretudo, a achar em mim a menina que fui e que continuo a ser.

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